Saturday, July 18, 2009

Tributo ao grande Willie Dixon em BLUESTIME (terça, 21 de Julho de 2009)




















The Songs Of Willie Dixon
(Telarc-Blues Telarc 83452; 52:33)
by Bill Milkowski for Jazztimes

Another bunch of talented blues players convene for A Tribute to Willie Dixon. The great Eddie Kirkland weighs in with a suitably earthy "Do Me Right" while New Orleans' scruffy slide veteran John Mooney gets rowdy on "When the Lights Go Out." Three other Louisiana natives-Tab Benoit, Kenny Neal and Sonny Landreth-contribute respectful tributes to the poet laureate of the blues. Benoit's "Mellow Down Easy" is full of fretboard sizzle while the multi-instrumental Neal showcases some robust country blues harmonica on "Bring It On Home." Landreth unleashes his signature slide chops on "Crazy for My Baby" behind vocalist Christine Ohlman, who returns to tear it up Koko Taylor style alongside John Ellison on "Wang Dang Doodle." One of the most authentic-sounding Chicago grooves is laid down here by Eddie Shaw and company on their menacing rendition of "I Ain't Superstitious." Harmonica ace (and former Muddy Waters sideman) Jerry Portnoy rocks the house on the boogie instrumental "Shakin' the Shack" while Luther Guitar Jr. Johnson and Ronnie Earl take a darker but no less dynamic path on the minor key dirge "My Love Will Never Die." Another highlight is Gatemouth's subdued but funky interpretation of "I Just Want to Make Love to You." All of these great blues staples get a new suit of clothes on this affecting tribute to the Chicago blues legend.

Lembrando Willie Dixon (por Márcio Ribeiro para o Whiplash)


Fazem exatamente dezessete anos que nosso querido Willie Dixon veio a falecer. Quem foi Willie Dixon? Praticamente o maior compositor do Blues que já apareceu. Os maiores hits do gênero são composições deste negro, natural de Minnesotta, nascido em uma pequena fazenda em Vicksburg, no ano de 1915. Lá viveu e cresceu, junto com seus quatorze irmãos, trabalhando durante boa parte de sua vida infantil.

William James Dixon, seu nome de batismo, já cantava por trocados aos onze anos de idade, participando do grupo vocal "The Union Jubilee Singers". Em 1929 se muda defintivamente para Chicago, onde passa a ganhar a vida com boxeador, tendo conquistado em 1932 as "Luvas de Ouro" na categoria Peso Pesados Amadores no Estado de Illinois, tornando-se profissional no ano seguinte. É também durante esta época que aprende a tocar contrabaixo.

Em 1939, passa um ano na cadeia por se recusar a prestar o serviço militar, um exercício de consciência cívica. Em 1940, começa a gravar com grupos e bandas diversas, acabando por trabalhar no final da década como músico, compositor, arranjador, produtor e/ou caça talentos para a Chess Records.

Entre os grupos e músicos com quem tocou ou gravou estão The Big Three, Memphis Slim & His House Bockers, Elmore James Broomdusters, The All Stars e Otis Rush Group. Suas canções mais conhecidas são "Back Door Man", "Evil", "My Baby", "Bring It On Home", "Big Boss Man", "Broken Hearted Blues", "Built For Comfort", "Do The Do", Down In The Bottom", "I Ain't Superstitious", "I Just Want To Make Love To You", "I'm Ready", "I'm Your Hoochie Coochie Man", "Little Red Rooster", "Spoonful", "300 Pound of Joy", "Wang Dang Doodle", "You Can't Judge A Book By It's Cover" e "You Shook Me".

Praticamente todos os grandes artistas do Blues e posteriormente do Rock já cantaram ou gravaram alguma coisa de Willie Dixon. Quem não se lembra da versão do Doors para "Back Door Man", ou a dos Rolling Stones para "Little Red Rooster"? A releitura do Cream para "Spoonful", a do Jeff Beck Group para "I Ain't Superstitious", ou de LED ZEPPELIN para "You Shook Me"? Sem falar em gente como Howlin' Wolf, Little Walter, KoKo Taylor e Muddy Waters, que gravaram as versões originais que influenciaram estes e outros músicos das gerações seguintes.

Apesar deste rico acervo, Willie nunca recebeu o pagamento relativo a direitos autorais. Isto é, até que durante a década de setenta ele, juntamente com Muddy Waters, processou a Arc Music, editora que cuidava de angariar os direitos autorais e repassá-los aos devidos artista. Após um processo que levou anos, finalmente na década de oitenta passou a receber esta verba devida. No embalo, também processou o LED ZEPPELIN pela gravação de "Bring It on Home" e "Whole Lotta Love", provando que esta última na verdade trata-se de um plágio da canção "You Need Love", de sua autoria.

Um dos poucos bluesmen originais de uma época de ouro, ainda vivo e ativo durante a década de oitenta, manteve uma vida artística tão ativa quanto lucrativa, excursionando pelos Estados Unidos e Europa. Paralelamente, trabalhou para várias organizações que prestam ajuda jurídica para assistir outros bluesmen menos conhecidos, igualmente privados de coletar os direitos autorais devidos. Em 1988, se torna o primeiro bluesman a ser contemplado com um box set, lançado pela MCA, o "Willie Dixon: The Chess Box".

Com a saúde cada vez mais frágil, no final da década Dixon acaba por ter sua perna amputada devido a problemas com diabetes. E em 1992, vêm a falecer enquanto dormia. Seu coração simplesmente parou de bater.

Descanse em paz, tio velho!


WILLIE DIXON DISCOGRAFIA
1959 Willie's Blues (Bluesville/OBC)
1960 At the Village Gate (Bluesville/OBC)
1970 I Am the Blues (Columbia/Legacy)
1973 Catalyst (Ovation)
1975 Willie Dixon's Peace? (Yambo)
1981 Blues Every Which Way (Verve)
1983 Mighty Earthquake & Hurricane (Mighty Tiger)
1985 Willie Dixon: Live (Pausa)
1988 Hidden Charms (Bug)
1989 Ginger Ale Afternoon (Varese Sarabande)
1996 Crying the Blues: Live in Concert (Thunderbolt)
1996 Late '60s Concert at Liberty Hall - Houston, Texas (Collectables)
1998 Good Advice (Wolf)
1998 I Think I Got the Blues (Prevue)
1998 What Happened to My Blues (Prevue)
2001 Big Boss Men [live] (Indigo)
2008 Aux Trois Mailots (Polydor)
2008 Earthquake & Hurricane (Spoonful)

Saturday, May 23, 2009

JIMMY DAWKINS e JIMMY JOHNSON em BLUESTIME (25 Maio 2008)


Os dois Jimmies que estarão no BLUESTIME dessa segunda são guitarristas excepcionais que surgiram na mesma cena do West Side de Chicago que, no início dos anos 60, projetou para o mundo talentos fabulosos como OTIS RUSH, MAGIC SAM, LUTHER ALLISON e BUDDY GUY, mas que acabaram tendo carreiras atrapalhadas e errantes.

Mesmo assim continuam na ativa até hoje, correndo o mundo com suas guitarras em punhos.

JIMMY DAWKINS nasceu em Tchula, Mississipi em 1936, aprendeu a tocar guitarra ainda menino, e se mudou para Chicago aos 19 anos para ser músico de blues. Sempre soube o que queria ser quando crescer.

Logo conheceu o cantor e gaitista Big Boy Arnold, com quem iniciou uma parceria que incendiou por muitos anos alguns dos piores inferninhos de Chicago. Foi nessa época que ganhou de seus fãs o apelido "fast fingers".

Depois de trabalhar como sideman nos discos de alguns amigos, e ver muitos de seus colegas do West Side gravarem discos e ganharem notoriedade pelo país inteiro, Jimmy Dawkins finalmente recebeu um convite para estrear como artista solo na prestigiada Delmark Records.

E então, com "Fast Fingers", seu primeiro disco, todo o mundo finalmente conheceu o ataque preciso e a pegada dramática (às vezes introspectiva) na guitarra de Jimmy Dawkins, que além do mais, era um tremendo cantor de blues. Com esse disco, ele faturou nada menos que o cobiçado "Grand Prix du Disque de Jazz" do Hot Club de France.

Seu segundo disco, infelizmente, não recebeu a mesma acolhida calorosa. Gravado em 1971, com Andrew "Big Voice" Odom nos vocais e Otis Rush na segunda guitarra, "All for Business" era tão bom quanto o anterior, mas simplesmente não emplacou. E o seguinte, "Blisterstring", de 1977, lamentavelmente teve o mesmo destino.

Tudo isso levou Jimmy Dawkins a deixar de lado sua preocupação em produzir discos e dirigir seu foco para as performances ao vivo, onde sempre reinou de forma absoluta. Em consequência disso, a maior parte dos registros gravados por ele ao longo dos anos 80 foram feitos de forma descontraída, quase sempre ao vivo.

Só em 1991 ele retornou ao disco de forma plena, com um belo projeto para a Earwig Records, estranhamente entitulado "Kant Sheck Dees Bluze", que foi recebido de forma extremamente calorosa pela crítica especializada, e aclamado como "um renascimento artístico".

De lá para cá, Jimmy Dawkins tem gravado bons discos regularmente para os selos Ichiban e Fedora, excursionado pelo mundo todo e, sempre que possível, contracenado em Festivais de Blues com seus companheiros de geração que ainda permanecem na ativa. (Chico Marques)

JIMMY DAWKINS DISCOGRAFIA
1969 Fast Fingers (Delmark)
1971 Tribute to Orange (Evidence)
1971 All for Business (Delmark)
1973 Transatlantic 770 (Excello)
1977 Blisterstring (Delmark)
1981 Hot Wire 81 (Isabel)
1985 Feel the Blues (JSP)
1986 All Blues (JSP)
1991 Kant Sheck Dees Bluze (Earwig)
1994 Blues & Pain (Wild Dog)
1995 B Phur Real (Wild Dog)
1995 Blues from Iceland (Evidence)
1995 Come Back Baby lIVE! (MCM)
1997 Me, My GUitar & the Blues (Ichiban)
1999 Jimmy And Hip Live (Rumble)
2002 West Side Guitar Hero (Fedora)
2002 American Roots: Blues (Ichiban)
2002 Born in Poverty (Black & Blue)
2004 Tell Me Baby (Fedora)


JIMMY JOHNSON já é um outro tipo de guitarrista.

Nascido em Holly Springs, Mississipi, em 1925 e criado em Chicago, Johnson por muito tempo se deixou levar por sua timidez, preferindo ser sideman, e trabalhando com seu irmão, o irmão e gaitista Syl Johnson. Teve vários convites de várias gravadoras ao longo dos anos 60 e 70, mas se esquivou de quase todos eles, e só gravou seu primeiro disco solo aos 50 anos de idade.

Guitarrista com uma pegada semelhante à de Otis Rush, Johnson se escolou na mesma cena do West Side de Chicago, e sempre foi conhecido por ter também uma voz espetacular, sob medida para a soul music. Tanto que vivia sendo requisitado para contracenar com artistas da cena soul de Chicago, como Otis Clay, Denise LaSalle e Garland Green.

Quando a cena soul começou a minguar por volta de 1974, Jimmy Johnson voltou a se dedicar ao blues. Foi quando trabalhou como segundo guitarrista para seus velhos amigos Jimmy Dawkins e Otis Rush.

Foi só então que Jimmy Johnson tomou coragem e começou a gravar discos solo espetaculares, primeiro para a Delmark (Johnson's Whacks, de 1978, e North South, de 1982) e depois para a Alligator (Bar Room Preacher, de 1983), que reapidamente o colocaram no topo do ranking dos grandes artistas de blues de Chicago.

Foi quando veio a tragédia: em Dezembro de 1988, Johnson dirigia uma van com sua banda pelo estado de Indiana quando se envolveu em um acidente que matou seu baixista Larry Exum e seu pianista St. James Bryant.

Muito abalado com tudo o que aconteceu, Johnson entrou em parafuso e resolveu parar com sua carreira musical. Ficou afastado da música vários anos, trabalhando com outras coisas. Os convites chegavam, e eram devolvidos com um "obrigado, não".

Mas então, em 1995, Jimmy Johnson recebeu um convite da Verve Records para gravar um disco, ficou animado com a proposta e decidiu que era a hora de voltar. Gravou um disco sensacional chamado "I´m a Jockey", onde mescla soul com blues de forma espetacular, e que faturou merecidamente alguns dos maiores prêmios da cena do blues naquele ano.

De lá para cá, não sossegou mais.

Hoje, aos 81 anos de idade, Jimmy Johnson permanece na ativa, fazendo shows com sua banda ou com seu irmão Syl, e mostrando para todos os puristas que -- gostem ou não -- blues e soul music são uma coisa só. (Chico Marques)

JIMMY JOHNSON DISCOGRAFIA
1977 Jimmy Johnson & Luther Johnson (MCM)
1978 Tobacco Road (MCM)
1979 Johnson's Whacks (Delmark)
1982 North/South (Delmark)
1983 Bar Room Preacher (Alligator)
1995 I'm a Jockey (Verve)
1999 Every Road Ends Somewhere (Ruf)
2000 Jimmy Johnson Featuring John Watkins (Black & Blue)
2000 Pepper's Hangout (Delmark)
2001 Ma Bea's Rock (Storyville)
2002 Heap See (Black & Blue)
2002 Two Johnsons Are Better Than One (Delmark)
2004 Brothers Live (Brambus)

Tuesday, May 5, 2009

PAUL RISHELL & ANNIE RAINES em BLUESTIME (11 Maio 2009)


O guitarrista Paul Rishell e gaitista Annie Raines tem sido uma das atrações mais legais da cena de Boston, Massachussets, nos últimos 17 anos, e já faturaram o cobiçado Prêmio W C Handy mais de uma vez.

É uma dupla muito interessante. Apesar de Paul ser 20 anos mais velho que Annie, um sempre teve tudo a ver com o outro.

Fascinados pelos diversos estilos de blues acústico surgidos antes de Segunda Guerra Mundial, eles dominam um repertório extremamente vasto, que inclui desde “Key to the Highway” de Big Bill Broonzy até pérolas pouco conhecidas de artistas como Barbeque Bob e Peg Leg Howell.

Curiosamente, isso não os impede de mesclar esses blues quase seculares com versões acústicas de clássicos do blues de pós-guerra que ficaram famosas em gravações de Muddy Waters, Howlin' Wolf e Magic Sam, entre muitos outros.

Paul se escolou tocando com vários de seus heróis, como Son House, Bonnie Raitt, Chris Smither e Howlin’ Wolf.

Já Annie foi a primeira gaitista do sexo feminino a acompanhar medalhões como Pinetop Perkins, Louis Meyers e James Cotton.

Desde que abriram mão de suas carreiras solo para iniciar essa parceria, muita coisa aconteceu para Paul e Annie.

Ela despontava como era uma jovem gaitista muito talentosa ainda em busca de foco para sua carreira, enquanto ele já era um veterano com bastante prestígio, mas com sua carreira focada demais no revivalismo do blues.

Juntos, o estilo de Paul tocar e cantar blues ganhou um colorido todo especial, a atitude de Annie finalmente achou seu foco artístico, e tudo ficou mais leve musicalmente.

O mais recente disco da dupla -- que de dois anos para cá virou também um casal -- se chama "A Night In Woodstock", e mostra Paul Rishell e Annie Raines em excelente forma, fazendo o que sabem fazer de melhor, e diante de uma platéia extremamente calorosa. (Chico Marques)


PAUL RISHELL & ANNIE RAINES DISCOGRAFIA:
I WANT YOU TO KNOW (Tone-Cool/Artemis 1996)
MOVING TO THE COUNTRY (2000)
GOIN’ HOME (2004)
A NIGHT IN WOODSTOCK (2009)


Monday, March 30, 2009

BLUESTIME recomenda: IGOR PRADO BLUES BAND NO TEATRO DO SESC-SANTOS


IGOR PRADO BLUES BAND - Quarta dia 01/04

Sem sombra de dúvidas, uma banda de blues absolutamente única na cena brasileira. Comandada pelo guitarrista IGOR PRADO, a banda segue os passos de grupos de blues da California como o LITTLE CHARLIE & THE NIGHTCATS, HOLLYWOOD FATS BLUES BAND e ROD PIAZZA & THE MIGHTY FLYERS, que se especializaram num gênero chamado "West Coast Jump Blues", que mescla o swing delicado de bluesmen clássicos como T-Bone Walker e Johnny Guitar Watson com a explosão de sopros e a batida acelerada dos combos endiabrados de Kansas City e Saint Louis, onde jazz e blues se fundem numa coisa só.

Com três discos lançados e uma reputação invejável em todo o continente americano, a IGOR PRADO BLUES BAND se apresenta em Santos pela primeira vez.

Preparem-se, portanto, para uma noite agitada e inesquecível.

Produção: Dois Por Quatro Comunicação
Realização: Jazz, Bossa & Blues, Revista Ao Vivo e Sesc Santos.
Horário: sempre às 20h
Local: Teatro do SESC-Santos
Endereço: Rua Conselheiro Ribas, 136
Preços: R$ 20,00, R$ 10,00 e R$ 5,00 (na bilheteria do teatro)
OBS: Clientes do Clube Assinante A Tribuna ganham 50% de desconto no preço dos ingressos (inteira).


PRÓXIMAS ATRAÇÒES:


ROBSON FERNANDES - Quarta dia 08/04

É a nova sensação da gaita no Brasil. Com apenas dois discos gravados Robson Fernandes vem arrancando elogios por onde passa, inclusive de feras como o veterano André Christovam. O músico vem a Santos para lançar o seu mais recente trabalho, o CD Cool.


CAVIARS BLUES BAND - Quarta dia 15/04

Guappo (vocal e gaita), Xilo (gaita), Ney Haddad (baixo) e Alaor Neves (bateria): a super banda Caviars Blues Band traz seu vigoroso blues-rock no lançamento do primeiro CD que leva o nome da banda. No repertório, temas clássicos de B.B. King, T. Bone Walker, Otis Rush, Albert King e outros. A Apresentação vai contar com a participação mais que especial do guitarrista Mauro Hector.


BIG CHICO BLUES BAND - Quarta dia 22/04

Gaitista e cantor de voz potente, Big Chico vem pela primeira vez a Santos para divulgar seus mais recentes trabalhos, CD e DVD gravados ao Vivo no Bourbon Street Music Club. O músico paulista já dividiu o palco com nomes importantes do blues na atualidade, como Rod Piazza, Deacon Blue, Keb Mo, e Rick Estrin.

Saturday, March 28, 2009

LURRIE BELL em BLUESTIME (30 Março 2009)

por Chico Marques

fotos: Inês Dupetit




Digamos que uma pessoa que jamais tenha tido qualquer contato com o Blues de Chicago, caísse de paraquedas no Teatro do SESC Santos no último sábado de Agosto de 2008 e assistisse inadvertidamente à performance musical de Lurrie Bell e sua Chicago Blues Band. A pergunta é: teria essa pessoa alguma chance de não ser abduzida pela elegância e pela levada fulminante desses grandes músicos e desse gênero musical absolutamente cativante?

Eu acho pouco provável. O groove do Blues de Chicago é muito poderoso. E o formato musical adotado pelo quarteto de Lurrie Bell é -- ao menos na minha opinião -- o mais cativante de todos: baixo, bateria, órgão e guitarra. Uma combinação inaugurada nos bares do Lado Oeste de Chicago no final dos anos 50, que acabou dando o tom nos trabalhos dos jovens expoentes do gênero na década de 60, como Otis Rush, Magic Sam, Buddy Guy e Michael Bloomfield. Se hoje esse formato musical virou clássico, é graças ao talento inigualável desses grandes artistas. Lurrie Bell é um herdeiro valoroso dessa tradição musical. Filho do fabuloso gaitista Carey Bell (falecido dois anos atrás), toca guitarra desde os 5 anos. Aos 16, já fazia parte da banda do pai. Com o passar do tempo, virou o comandante da banda. Com isso, tomou coragem e gravou alguns discos solo para a gravadora JSP no final dos anos 80, sempre sob a supervisão do saudoso amigo Phil Guy (irmão de Buddy Guy) -- que, apesar de ótimos, tiveram pouca repercussão na ocasião.

Sua segunda investida solo, numa série brilhante de 4 discos repletos de composições próprias para a Delmark Records, gravados ao longo dos anos 90, teve melhor sorte. O primeiro, "Mercurial Son", de 1992, é um trabalho experimental criado à beira da loucura -- Lurrie vivia problemas psicológicos muito complicados na ocasião -- e é tido pela crítica como o disco de blues mais estranho de todos os tempos. Para se recompor, ele deixou sua carreira solo de lado e se refugiou por cinco anos na banda de seu pai. Recuperado, ele saiu solo novamente em 1997, com "700 Blues", um belo disco no formato clássico do Blues de Chicago dos anos 60. Um ano mais tarde, convocou nada menos que Dave Specter & The Bluebirds como banda de apoio e gravou mais um disco sensacional: "Kiss Of Sweet Blues". E então, em 1999, brilhou com "Blues Had A Baby", uma pequena obra prima, onde todas as suas experiências musicais anteriores se misturam, revelando o grande estilista do blues moderno em que Lurrie Bell se transformou.

De 2000 para cá, Lurrie gravou apenas 2 discos solo. Mas circulou pelo mundo afora, tanto com seu trabalho solo quanto como escudeiro de seu pai -- muito debilitado fisicamente a essa altura da vida, tanto que subia aos palcos sentado em uma cadeira de rodas. Juntos eles gravaram o DVD documentário "Gettin' Up Live At Buddy Guy's Legends", uma espécie de testamento musical de Carey Bell, que morreu antes de seu lançamento. Poucos meses mais tarde, Lurrie perderia sua mulher, a fotógrafa Susan Greenberg. Para não flertar com o desespero e não cair em depressão, ele mergulhou fundo no trabalho. O resultado é que seu último disco, "Let's Talk About Love", dedicado à memória dos dois, é justamente o seu disco mais sereno e delicado. A bela foto da capa é de Susan. Além do mais, "Let's Talk About Love" é seu primeiro trabalho em seu selo próprio, Aria BG, que leva o nome de sua filha, Aria Bell Greenberg. O show que vimos no Teatro do SESC Santos tem a ver com tudo isso. Como acontece com muitos músicos de blues em tournée pelo exterior, Lurrie Bell evitou apresentar material próprio -- tocou apenas o número instrumental "Lurrie's Blue Groove" logo na abertura -- e preferiu desfilar um set de blues clássicos em releituras muito inspiradas, bancando o Embaixador do Blues. O resultado disso é que mesmo quem já ouviu um milhão de vezes "I'm Ready", "Reconsider Baby", "Five Long Years", "Everything's Gonna Be Alright" e "Got My Mojo Working", com inúmeros artistas diferentes, acabou rendido ao talento e à nonchalance de Lurrie Bell e sua banda. No bis, nada menos que "Messin' With The Kid", clássico absoluto de Junior Wells, encerrando a noite com uma levada acelerada, vigorosa, sacana e perigosa.

Quem gosta de blues, saiu do show de Lurrie Bell e sua banda com a alma lavada. Há vários anos não passava por aqui um artista de blues tão cativante. Já quem caiu de paraquedas no Teatro do SESC Santos naquela noite chuvosa, e tomou contato pela primeira vez com a essência do blues, certamente acabou abduzido pelo suingue da "Windy City" e não acordou a mesma pessoa no dia seguinte.

Conheça nessa próxima segunda, em BLUESTIME, um pouco de "Let's Talk About Love", e você vai entender que não há o menor exagero nos elogios que voc6e acaba de ler a respeito dessa fera da guitarra do blues contemporâneo: Lurrie Bell.(Chico Marques)


LURRIE BELL AO VIVO NO SESC-SANTOS (23 de AGOSTO de 2008)


GOT MY MOJO WORKING (Muddy Waters)

HOLMES BROTHERS em BLUESTIME (30 Março 2009)


Os Holmes Brothers são compostos pelo guitarista e vocalista Wendell Holmes, mais o baixista e vocalista Sherman Holmes, e ainda o baterista e vocalista Popsy Dixon. Eles nasceram na Virgínia e depois passaram mais de duas décadas circulando pela noite da cidade de Nova York, cada um tocando numa banda diferente. Só em 1980 eles uniram forças e criaram os Holmes Brothers, com sua deliciosa mistura de blues, soul e gospel. Em pouco tempo, estava, fora dos clubes noturnos da cidade rumo e frequentando festivais internacionais de blues.

O primeiro grande momento da banda veio num disco de gospel simplesmente divino gravado para o selo Real World, de Peter Gabriel, chamado "Jubilation". Depois compuseram a premiada trilha sonora para o filme independente "Lotto Land". E agora, na Alligator Records, eles chegam já brilhando forte com "Speaking in Tongues", produzido por uma velha amiga, a cantora pop Joan Osborne.

Sherman Holmes fala um pouco sobre tudo isso em sua casa em Nova York para a repórter Roberta Penn.

P: Speaking in Tongues é, de certa foma, um disco de spirituals. Era isso que vocês pretendiam fazer ao assinarem com a Alligator Records?

R: Mais ou menos, não exatamente gospel, mas algo bem spiritual, como você disse. Na verdade, Joan [Osborne] queria produzir um disco para nós, mas nós não queríamos fazer isso exatamente. Deu nisso que está no disco, e ficou bem interessante, funcionou muito bem. Optamos por um disco de gospel com um sotaque forte de blues porque sentimos que iríamos acabar competindo com muitos grupos de gospel, e não queríamos isso.

P: Como foi que Joan Osborne acabou produzindo o novo disco dos Holmes Brothers?

R: Conhecemos Joan faz tempo. Quando eu comandava jam sessions no Dan Lynch Club na década de 80, na 2nd Avenue em Nova York -- vim para Nova York em 1959 e tenho morado aqui desde então --, Joan costumava aparecer e cantar com a gente. Na época ela estava chegando na cidade para fazer cinema, e nós sempre nos demos muito bem.

P: E como foi tê-la como produtora?

R: Foi perfeito. Estava tudo em casa. Nós a conhecíamos bem, conversávamos bastante. Somos muito amigos, já faz muito tempo.

P: "Jubilation", gravado para a Real World alguns anos atrás, era totalmente gospel, não era?

R: Era. Mas, em outras circunstâncias, nós apenas incluímos um ou dois números de gospel em cada disco que gravamos, e também fazemos dois tipos de show: blues ou gospel. Pulamos de um gênero para o outro dependendo do perfil do lugar onde nos apresentamos. Mas apesar de termos crescido cantando e tocando gospel music, não nos consideramos artistas do gênero, apesar de meu irmão e eu termos sido pianistas de igreja. No entanto, sempre passeamos pelo gospel, não dá para evitar.

P: Como vocês três montam um disco juntos? O processo é democrático?

R: Meu irmão Wendell e eu compomos separadamente, e nossos produtores nos ajudam a escolher as canções que vão compor o disco. É democrático sim.

P: Você pronuncia o nome dele Wen-Dell, com ênfase na segunda sílaba...

R: [rindo] É porquê somos de Virginia. Fui eu quem o batizou Wendell quando ele nasceu. Sou 4 anos mais velho -- Popsy nasceu entre nós dois -- e Wendell Willkie estava concorrendo à Presidência dos Estados Unidos na ocasião...

P: Sua versão funky para a canção de Rosetta Tharpe "Can't Nobody Hold My Body Down" é sensacional. Como foi que ela foi elaborada?

R: Foi idéia de Joan. Meu irmão e eu fizemos o arranjo. Joan é admiradora de Ben Harper, e nós também.

P: A versão de "I Want to Be Ready" também é um estouro...

R: Trabahamos sobre o arranjo original dele, e depois colocamos nossa instrumentação. Acabou ficando com a cara dele. Sempre que cantamos juntos, nós tocamos nossos instrumentos, daí sempre estamos por inteiro em nossos discos. Conseguimos um organista para participar das gravações e um de nossos produtores, Andy Breslau, tocou harmonica em "Homeless Child". Além disso, nossa backup singer Catherine Russell tocou mandolin em uma das faixas.

P: Você compôs "Speaking in Tongues". O que o inspirou para fazer isso?

R: Eu fui a uma igreja com minha mulher um dia, e o pastor começou a falar sobre pessoas que falam outras línguas. Daí, comecei a compor uma canção de amor, e terminei com uma canção gospel nas mãos.

P: Vocês costumam escutar muita música quando estão na estrada?

R: Claro, eu escuto muita música clássica, jazz e country. Eu adoro música irlandesa. Ultimamente tenho ouvido bastante o Adagio para Cordas de Samuel Barber. Adoro tonalidades mas do que a própria música, e isso de certa forma me carrega para um mundo próprio. Eu sou capaz de me perder na música -- no bom sentido, claro.

P: Você é criticado por misturar música clássica com música de igreja?

R: Não ligamos para isso. Olha, o blues veio do gospel. Thomas Dorsey tocava blues, e tocava na igreja. Desde então, o gospel tenta se separar disso tudo. Nós não concordamos com isso, e seguimos na contramão, que nos parece um caminho musical muito mais natural. Algumas igrejas tem horror aos Holmes Brothers. Outras não se importam, e nos aceitam. Eu tenho uma tia que não concorda com essa coisa de levar guitarras para a igreja. Ela nunca esteve em nenhum dos nossos shows. O pai dela era pastor.

P: E as outras pessoas em sua família, elas apóiam essas aventuras musicais?

R: Sim, nosso pai, que morreu faz pouco tempo, foi nosso maior apoiador. Ele chegou a ouvir "Speaking in Tongues" ainda não mixado, e adorou. Ele adorava tudo o que fazíamos. Falava de nós o tempo todo, tanto que dedicamos esse disco a ele.

(publicado originalmente pela Barnes&Noble.com - tradução: Chico Marques)

Mais sobre os Holmes Brothers em seu website